Dourados 'brigou' para que novo Estado se chamasse Mato Grosso do Sul

| DOURADOSNEWS / WENDER CARBONARI


Populares fizeram carreata em comemoração pela divisão do Estado de Mato Grosso e criação de Mato Grosso do Sul - Crédito: Roberto Higa

No dia 11 de outubro de 1977, há exatamente 44 anos, uma lei promulgada pelo governo federal da época dava origem a um novo Estado: o Mato Grosso do Sul. A mudança nos traçados geográficos do Brasil, repartindo o Mato Grosso, foi resultado de uma conjuntura. 

Entre os diversos fatores que tiveram que estar alinhados e ‘atores políticos’ interessados na separação das regiões Sul e Centro-Norte do Mato Grosso, estava o município de Dourados. A elite política local teria influenciado a escolha do nome para a 23ª  u nidade da federação cotada inicialmente para ser o “Estado de Campo Grande”.

É claro que, assim como moradores de outros municípios, os douradenses não gostaram da sugestão.

A ideia acabou sendo rejeitada até mesmo por parte dos campo-grandenses e a região Sul de Mato Grosso, por fim, acabou se tornando o Mato Grosso do Sul que conhecemos atualmente.

Para entender melhor esta história, o Dourados News conversou com o professor da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) Paulo Roberto Cimó Queiroz e ‘viajou no tempo’ através de pesquisas realizadas sobre a divisão federativa tornada oficial através da Lei Complementar Nº 31.   

A respeito do posicionamento de Dourados em meio as discussões sobre a divisão, Cimó afirma, com base em pesquisa da historiadora Vera Lucia Furlanetto, que jornais de Campo Grande - cidade que viria a se tornar Capital - chegaram a anunciar a criação do “Estado de Campo Grande”.   

“Não foi apenas o pessoal de Dourados que protestou, pois até em Campo Grande haviam divergências, mas as manifestações acabaram sendo significativas. Havia uma ambiguidade identitária que ainda existe nos dias de hoje. As pessoas queriam a divisão, mas não queriam perder o ‘vínculo’ com a história. ‘Queremos ser do Sul, mas não queremos deixar de ser mato-grossense’”, explicou o professor e pesquisador.

Alguns mais ‘entusiasmados’ chegaram a reivindicar que Dourados fosse a capital do novo Estado. 

A respeito das mudanças trazidas pela separação de Mato Grosso, Dourados, assim como todo o Mato Grosso do Sul acabou sendo beneficiado em diversos aspectos como o político, já que facilitaria a representação direta e administrativa, sobretudo por causa do repasse de recursos federais. 

Também foi somente depois da criação do novo Estado que começaram as articulações que viabilizaram implantação do primeiro curso universitário em Dourados - de agronomia em 1978 - no mesmo imóvel em que funcionava o Ceud (Centro Universitário de Dourados) e atualmente fica a reitoria da UFGD. 

Com grande extensão de terras férteis e plana, o município de Dourados, e toda região localizada ao Sul de Mato Grosso do Sul, ganhou destaque pelo desenvolvimento agropecuário. Fatores que proporcionaram o protagonismo da cidade, hoje a maior e mais populosa do interior sul-mato-grossense.  

A DIVISÃO 

Objeto de estudo de vários historiadores, as discussões sobre a divisão de Mato Grosso tiveram início ainda no começo do século XX, com auge durante o governo Getúlio Vargas (1930-1945), perdendo força e quase caindo no esquecimento até o início do período de Ditadura Militar (1964-1985). 

A região Sul de Mato Grosso vivia praticamente isolada. A principal via de acesso se dava pelo Rio Paraguai, ligando Corumbá a capital Cuiabá. Tanto que Campo Grande foi ligada por via pavimentada com São Paulo (SP), antes mesmo de existir acesso por estrada asfaltada com Cuiabá. 

“É que, na realidade, os dois estados já existiam antes mesmo de 1977: Sul e Norte, desde os tempos coloniais, viveram apartados. O Norte mais identificado com a Amazônia; o Sul influenciado por São Paulo e por elementos culturais do Rio Grande do Sul e do Paraguai”, diz trecho da pesquisa da historiadora Marisa Bittar.

Apesar do isolamento e da rivalidade entre as duas grandes regiões de Mato Grosso, o interesse pela defesa das fronteiras e aspiração pela permanência no poder por parte do general Ernesto Geisel, foram determinantes para que a divisão do estado, após décadas, pudesse sair do papel. 

Após a promulgação da Lei Complementar no dia 11 de outubro de 1977, uma Assembleia Constituinte foi eleita no dia 15 de novembro de 1978. O período de transição foi findado apenas no dia 1º de janeiro de 1979, com Harry Amorim Costa sendo nomeado o primeiro Governador do Estado, escolhido pelo Colégio Eleitoral. 

Na Lei Complementar é mencionada, inclusive, a implantação de programas de desenvolvimento para os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com duração de 10 anos. O objetivo era garantir apoio financeiro para arcar com as “despesas correntes” desta mudança.

Como é possível perceber, tudo teve que ser reorganizado e recriado. Desde a composição do quadro político com a criação de zonas eleitorais, passando pelo poder judiciário, ministérios públicos, tribunal de contas, segurança pública, disposições patrimoniais, etc.  

Passados 44 anos, o atual Mato Grosso do Sul, segue firme e forte, caminhando ‘com as próprias pernas’. Mais que motivo para celebrações. 

FOTO INTERNA 1:   A Lei Complementar nº 31, que decretou desmembramento de Mato Grosso e criou Mato Grosso do Sul foi assinada pelo então presidente Ernesto Geisel.

FOTO INTERNA 2: Desfile do governador Harry Amorim Costa no estádio Morenão, em Campo Grande, ao lado do presidente Ernesto Geisel.

Desfile do governador Harry Amorim Costa no estádio Morenão, em Campo Grande, ao lado do presidente Ernesto Geisel.
A Lei Complementar nº 31, que decretou desmembramento de Mato Grosso e criou Mato Grosso do Sul foi assinada pelo então presidente Ernesto Geisel.

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