Arroba cai 13%, mas preço da carne bovina continua em alta para consumidores

Com o embargo chinês à carne brasileira, valores pagos ao produtor rural apresentaram queda e se igualaram aos praticados no ano passado

| CORREIO DO ESTADO / IZABELA CAVALCANTI, SúZAN BENITES


- Arquivo/Correio do Estado

O preço do quilo da carne bovina tem se mantido em alta nos comércios de Campo Grande, enquanto o preço da arroba do gado registra queda nos últimos dois meses e apresenta preços parecidos com os praticados no ano passado. 

Dados do boletim Casa Rural da Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Sistema Famasul) apontam que, em outubro de 2020, a arroba do boi custava R$ 258 e, neste mês, chegou ao preço médio de R$ 267,92.

“O mercado físico já precificou a ausência da China e indicou nova referência para o valor da arroba, entre R$ 260 e R$ 270. A desvalorização nos preços levou à aproximação com o valor de 2020, mas ainda registra ganhos de 3,8% no valor da arroba do boi quando comparado ao ano passado', informou o relatório.

São duas as justificativas para a queda dos preços, de acordo com o diretor do Sindicato Rural de Três Lagoas, Marcos Ribeiro: “Tanto o embargo da China [à carne brasileira] quanto a queda no consumo. Estamos abatendo menos e já percebemos essa redução [no valor da arroba]', explicou o diretor, que é proprietário de um frigorífico.

O doutor em Economia Michel Constantino afirma que o setor mais prejudicado nesse momento é a pecuária. 

“Um segmento importantíssimo para o País. Com essa questão da vaca louca ter virado de um problema sanitário, uma questão comercial, a China está pressionando o Brasil a vender mais barato. O setor vai ser bastante impactado e espera-se voltar às exportações para o país asiático no fim do ano', disse.

'Os pecuaristas são os mais prejudicados porque têm um custo muito alto dos insumos para manter essa carne', completou.  

De acordo com o relatório técnico da Famasul, o valor da arroba e os preços médios praticados nos primeiros nove meses deste ano só estavam inferiores ao valor de novembro de 2020, no entanto, a cotação de setembro ficou abaixo do valor de setembro do ano passado, em razão da manutenção da suspensão das exportações para a China.  

“A cotação de setembro, quando comparada a igual período de 2020, registrou desvalorização real de 1,01% na arroba do boi gordo e ganho de 0,57% na arroba da vaca', detalhou o relatório.

PREÇOS

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os cortes bovinos acumulam alta de até 34% em 12 meses em Campo Grande. Somente este ano, o acém, por exemplo, subiu 21%, e o contrafilé, 12%. 

Nas casas de carnes e nos açougues de Campo Grande, a picanha, por exemplo, saiu de R$ 53,96 (em média, por quilo) em outubro do ano passado para R$ 69,33 neste mês. Ainda conforme levantamento do Correio do Estado, o quilo chega atualmente ao máximo de R$ 87,78.

Ainda conforme pesquisa da reportagem: o quilo de filé-mignon aumentou 29,69%, saindo de R$ 52,84 no ano passado para R$ 68,53 este ano; o quilo da costela subiu de R$ 19,50 para R$ 22,14; e a ponta de peito aumentou em média 19% – em outubro de 2020 custava R$ 29,80 e neste ano é comercializada a R$ 35,48 o quilo.  

A reportagem ontem conversou com proprietários de açougues e casas de carnes em Campo Grande. Os empresários preferiram não se identificar, com medo de represálias.  

O primeiro afirmou que “os fornecedores ainda não mudaram preço nenhum. Esse ramo da carne está bem complicado em questão de valores. Estou pagando R$ 315 na arroba. Há dois anos, eu pagava R$ 184'.

Outro empresário disse ter dificuldade para adquirir o produto. “Os frigoríficos fazem estoques. Então, mesmo que eles comprem arroba mais barata, eles ainda vão continuar oferecendo o que eles têm no estoque pelo valor caro que eles compraram', avaliou.

Para o economista, os preços podem começar a reduzir para o consumidor em dois meses. “Saiu essa semana a notícia que o Ministério da Agricultura pediu para que não se produza mais carne para a China neste momento. Com isso, os produtores devem produzir para a demanda interna e o preço tende a cair', explicou Constantino.  

EMBARGO

A confirmação de dois casos de encefalopatia espongiforme bovina (EEB) ou vaca louca ocorreu no dia 3 de setembro, em um frigorífico em Minas Gerais e outro em Mato Grosso. Desde então, o envio de carne brasileira à China foi embargado.  

O embargo derrubou os preços da arroba em todo o País. Em Campo Grande, segundo a Scot Consultoria, o preço da arroba saiu de R$ 310,50 no dia 31 de agosto para R$ 303,50 no dia 13 de setembro – ontem, a arroba estava cotada a R$ 269 para pagamento à vista e livre de Funrural. A redução é de 13,36% em dois meses.  

No pagamento a prazo, a redução é de 14,32% no mesmo período, saindo de R$ 316,50 em agosto para R$ 271 agora.

Em Dourados, o preço da arroba saiu de R$ 310,50 à vista e R$ 316,50 no pagamento a prazo para R$ 268 e R$ 270, respectivamente. Já em Três Lagoas a arroba do boi saiu de R$ 305,50 para R$ 267 na compra imediata e para 30 dias caiu de R$ 311,50 para R$ 269.

O embargo ocorreu no dia 4 de setembro e já chega há um mês e 17 dias. Esse é o maior período de embargo à carne bovina brasileira por parte do país asiático. Em 2019, também por um caso de vaca louca, as exportações ficaram suspensas por 13 dias.  

Conforme o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a ministra Tereza Cristina Dias enviou uma carta ao ministro-chefe da Administração Geral de Alfândegas da China (Gacc, na sigla em inglês) e se colocou à disposição para tratar pessoalmente sobre a paralisação das exportações de carne bovina para a China.  

Conforme a assessoria da ministra, ainda não houve resposta por parte do país asiático. As suspensões ocorreram em respeito ao protocolo firmado entre os dois países, que determina essa postura em casos de doença da vaca louca. 

“O Brasil foi totalmente transparente com as autoridades sanitárias chinesas, informando a possibilidade de EEB antes mesmo da confirmação oficial pelo laboratório canadense', completou em nota enviada ao Correio do Estado.

Ainda de acordo com informações do Mapa, não existe uma data para a retomada das exportações de carne para a China, pois a decisão não cabe ao governo brasileiro. 

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