Bets legalizadas cobram cerco contra sites clandestinos do ‘jogo do tigrinho’

Governo promete regras para fornecedores de jogos ainda em 2026

| KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS


Celular com aposta virtual do tipo 'Tigrinho' (Foto: Arquivo Campo Grande News)

As casas de apostas licenciadas no Brasil passaram a cobrar do governo federal uma fiscalização mais dura contra empresas que fornecem jogos de cassino online, como o Fortune Tiger, conhecido como “jogo do tigrinho', a plataformas clandestinas. Segundo a Folha de S.Paulo, a expectativa do Ministério da Fazenda é publicar ainda neste ano uma regulamentação específica para esse elo da cadeia.

Essa pressão ocorre na mesma semana em que artistas e entidades da sociedade civil lançaram a campanha “Block no Tigrinho', voltada a alertar sobre riscos de dependência, sofrimento e dívidas ligados a esse tipo de jogo. A mobilização, iniciada na terça-feira (2), reuniu nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil e Anitta.

A exploração de cassinos digitais foi autorizada no país no fim de 2023, mas somente para empresas que passam por licenciamento federal. Para operar legalmente, as bets precisam cumprir uma série de exigências, entre elas verificação dos controladores e pagamento de outorga de R$ 30 milhões. Fora desse sistema, a oferta de apostas é ilegal e, segundo autoridades, pode estar associada a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.

O setor regulado defende que a fiscalização não fique restrita às operadoras, mas avance também sobre os fornecedores de tecnologia. A lógica é simples: sem softwares, sistemas de pagamento e jogos prontos, as plataformas ilegais perdem parte da estrutura que mantém o negócio funcionando.

Hoje, a SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas), ligada ao Ministério da Fazenda, concentra a fiscalização principalmente nas operadoras. Em outra frente, o BC (Banco Central) passou a mapear instituições de pagamento que prestam serviços ao mercado irregular.

De acordo com dados da consultoria H2 Gambling Capital citados pela Folha, os cassinos online representam 60% do faturamento das casas de apostas no Brasil. Entre plataformas ilegais, essa fatia sobe para 72% de um mercado que movimentou R$ 14 bilhões em 2025. Jogos como “tigrinho', “velho do raio' e Aviator estão entre os mais populares.

Um exemplo recente foi a operação Falsa Las Vegas, da Polícia Civil de São Paulo. A investigação teve como alvo o site clandestino Black Vegas, hospedado fora do Brasil, que oferecia jogo do tigrinho e jogo do bicho. O responsável pela plataforma é suspeito de ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

O IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), que representa empresas do setor regulado, afirma que sites clandestinos funcionam fora do país, não recolhem impostos, geram pouca atividade econômica no Brasil e escapam da taxa federal de licença. Para a entidade, não faz sentido cobrar regras rígidas apenas das empresas legalizadas, enquanto fornecedores seguem atendendo operadores irregulares.

A SPA informou que já realizou consulta pública para ouvir sugestões sobre a regulamentação dos fornecedores. Uma audiência pública sobre o tema está marcada para o dia 25. Atualmente, a legislação exige apenas que desenvolvedores de jogos tenham certificados de auditorias independentes comprovando adequação às normas brasileiras.

As bets defendem que fornecedores irregulares recebam punições semelhantes às aplicadas às operadoras. A legislação prevê advertência, suspensão, cassação de licença e multa de até R$ 2 milhões para casas de apostas que descumprem as regras.

PG Soft, empresa de Malta responsável pelo desenvolvimento do Fortune Tiger, não respondeu aos contatos feitos pela Folha desde 1º de junho.

Já a SoftSwiss, provedora certificada de plataformas de cassino e apostas esportivas, afirma verificar a licença dos clientes antes de fechar contrato. A gerente regional da empresa para a América Latina, Carla Duailib, disse à Folha que a checagem é necessária para preservar a reputação da companhia.

O cenário regulatório, porém, ainda é confuso. Além das licenças federais, estados como Rio de Janeiro, Paraná e Paraíba criaram regras próprias para o setor. No âmbito municipal, algumas cidades chegaram a vender autorizações por valores muito inferiores à outorga federal. Em dezembro de 2025, o STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu licenças municipais, o que tornou clandestinas empresas que operavam apenas com esse tipo de autorização.

Em nota, o Ministério da Fazenda informou que atua em várias frentes contra o mercado ilegal. Em parceria com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), mais de 45 mil sites irregulares foram bloqueados. Na área financeira, a SPA identificou 2.007 contas bancárias suspeitas de ligação com jogos ilegais, das quais 873 foram encerradas pelo BC.

O governo também informou ter concluído 712 processos de fiscalização contra influenciadores digitais por publicidade irregular. As ações resultaram na remoção de 682 perfis e 290 publicações em plataformas digitais, em cooperação com o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) e o Conselho Digital do Brasil.

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