Cinco mortos e 5 baleados marcam fim de semana violento na Capital
Ocorrências foram entre sábado e segunda-feira, com execuções, facadas e vítimas baleadas em diversos bairros
| BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS
Cinco pessoas foram assassinadas e outras cinco ficaram feridas em ataques a tiros registrados em Campo Grande entre sábado e esta segunda-feira (15). A sequência de violência inclui execuções em praça, conveniência, dentro de casa e em terreno baldio, além de tentativas de homicídio e casos tratados inicialmente como lesão corporal dolosa.
O primeiro homicídio ocorreu na noite de sábado (13), na praça Lucas de Andrade Cardoso, conhecida como Arena da Família, no Bairro Alves Pereira. Claudemar Ferreira Alves, 36 anos, foi morto com um tiro na cabeça durante a transmissão de uma partida de futebol da Copa do Mundo.
Conforme o boletim de ocorrência, Claudemar estava em uma arquibancada de concreto quando foi abordado por dois homens em uma motocicleta Honda CG 160 vermelha. Os suspeitos conversaram com a vítima antes de seguirem com ela até o ponto onde o crime aconteceu. Em seguida, um deles sacou uma arma e atirou contra Claudemar.
A vítima foi socorrida e levada à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário, mas não resistiu. Segundo a investigação, o crime pode estar ligado à disputa pelo tráfico de drogas na região. Há suspeita de que a execução tenha sido encomendada por R$ 30 mil por um detento conhecido como “Seis Dedos'. O suposto executor foi identificado apenas como “Macaquinho'.
No local, a perícia recolheu cápsulas de munição e vestígios de sangue. Testemunha relatou ter visto os suspeitos chegando momentos antes da execução e apontou o atirador pelo apelido. A polícia também apura se Claudemar pertencia a uma facção criminosa. Ele teria passagens por tráfico de drogas, estupro de vulnerável e outros crimes, além de já ter sido ameaçado de morte.
Ainda no sábado, Guilherme Soares Gomes Oliveira, conhecido como “Garrafinha', foi assassinado em frente ao Bar Tortuga, na esquina com a Rua Clineu da Costa Moraes, no Jardim Leblon. O atirador se aproximou usando capacete com a viseira fechada. Ao perceber que o suspeito estava armado, Guilherme correu pela avenida, mas foi perseguido e atingido.
Mesmo depois de a vítima cair no chão, o autor se aproximou e continuou atirando. Guilherme morreu no local, em frente a uma conveniência. O óbito foi constatado às 21h20 por médico da Ursa (Unidade de Resgate e Suporte Avançado) do Corpo de Bombeiros.
Testemunhas disseram à polícia que o atirador fugiu acompanhado de uma mulher. Após o crime, um conhecido da vítima teria publicado em rede social a frase “Vida se paga com vida', informação que pode ajudar na apuração da motivação. O pai de Guilherme esteve na cena do crime, mas afirmou não saber de desavenças nem conhecer a identidade do autor.
Durante a perícia, foram recolhidas nove cápsulas deflagradas de arma de fogo de uso restrito ou proibido. Equipes do Batalhão de Choque, da Rotac, da Polícia Militar, da Perícia Técnica e do GOI (Grupo de Operações Investigativas) foram acionadas. O caso foi registrado como homicídio qualificado pela emboscada e por recurso que dificultou a defesa da vítima na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol.
Guilherme havia sido denunciado pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) por envolvimento no assassinato de Lucas Ribeiro Pastor, ocorrido em 7 de julho de 2025, no Bairro Iracy Coelho Netto. Também foram denunciados João Vitor da Silva Bento, o “Joãozinho do Corte', Jhullison Fernando da Silva, o “Duxo', e Kaio Henrique Pires dos Santos, o “Caim'. Kaio ainda foi acusado de tentativa de homicídio contra outro rapaz, por erro na execução do crime.
Discussão, espancamento e facadas ampliam sequência de crimes
Na madrugada de domingo, Renato Bravo da Cruz, 40 anos, foi morto com um tiro no rosto após bater na traseira do veículo de um suspeito em frente a uma conveniência na Avenida dos Cafezais, no Bairro Paulo Coelho Machado.
De acordo com o boletim de ocorrência, Renato estava no estabelecimento com Cintia Souza da Silva, apontada inicialmente como esposa, mas que informou ser ex-companheira da vítima. Ao sair, Renato deu partida em um Chevrolet Celta e bateu na traseira de um Ford Versailles estacionado à frente.
O condutor do Versailles, identificado como Claudio Barros de Araujo, 40 anos, desceu do carro, foi até a porta do veículo de Renato e atirou. O disparo atingiu a região do olho esquerdo da vítima, que ainda tentou sair do automóvel, mas caiu logo depois. O socorro foi chamado, mas a morte foi constatada no local.
O autor fugiu. Revoltadas, pessoas que presenciaram a cena depredaram o Ford Versailles deixado pelo suspeito. O carro ficou com os vidros quebrados, o para-brisa trincado e uma pedra sobre o capô. A perícia recolheu um projétil. Câmeras de segurança registraram a correria de clientes e o desespero de uma mulher que aparenta ser a ex-companheira de Renato.
Também no domingo, Renan Rodrigues Vaz, 30 anos, morreu após uma sessão de espancamento na casa onde morava, no Jardim Presidente. Câmeras de segurança registraram a movimentação em frente ao imóvel durante a madrugada.
Nas imagens, um Fiat Uno escuro aparece estacionando em frente à residência por volta das 3h46. Dois homens descem do carro. Um deles entra na casa e o outro vai até uma placa de trânsito, pega um pedaço de madeira e também entra no imóvel. Cerca de dez minutos depois, o suspeito sai, faz uma manobra e estaciona o carro dentro do quintal.
Em outro trecho, já por volta das 7h16, o suspeito aparece saindo da casa, fechando o portão e carregando algo semelhante a um pedaço de madeira e tecidos. O boletim de ocorrência não detalha o que ocorreu entre os horários registrados.
A Polícia Militar foi acionada inicialmente para atender uma ocorrência de lesão corporal. Ao chegar ao endereço, encontrou Renan caído na entrada de um dos quartos, acompanhado da mãe. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) foi chamado e constatou o óbito às 12h31. A perícia estimou que a morte ocorreu por volta das 10h.
O pai da vítima disse que encontrou o filho inconsciente e sangrando sobre um sofá. Ele contou que moveu Renan para o chão para tentar socorrê-lo, mas o rapaz parou de respirar em seguida. Segundo o relato, Renan era usuário de cocaína, costumava cometer furtos na região e acumulava desafetos. Não foram encontrados sinais de luta na casa. O caso foi registrado como homicídio qualificado, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima.
Na madrugada desta segunda-feira (15), um homem ainda não identificado, de aproximadamente 30 anos, foi assassinado a facadas no Jardim das Macaúbas. O corpo foi encontrado em um terreno baldio na Rua São Pio de Pietrelcina, em frente à Escola Municipal Plínio Barbosa Martins.
A Polícia Militar foi acionada por volta das 4h30 por um morador que disse ter presenciado uma briga. Ele relatou que uma pessoa estava caída no chão e respirava com dificuldade, mas a ligação caiu em seguida. Quando a equipe do 10º Batalhão chegou ao local, encontrou a vítima inconsciente. O Corpo de Bombeiros foi acionado, mas o homem já estava morto.
Inicialmente, foram constatadas cerca de dez lesões pelo corpo, compatíveis com golpes de faca. A arma não foi encontrada. A vítima vestia camiseta preta e short tipo samba-canção. Ao lado do corpo estavam um par de tênis, um casaco de moletom e uma bermuda jeans. Como o homem não carregava documentos, celular ou objetos pessoais, não foi identificado de imediato.
Nenhuma testemunha foi localizada e ainda não há informações sobre autoria ou motivação do crime. O caso foi registrado como homicídio qualificado por meio insidioso ou cruel.
Feridos em ataques - Além dos assassinatos, Campo Grande também registrou vítimas baleadas no mesmo período.
No fim da noite de sábado, durante o ataque que matou Guilherme Soares Gomes Oliveira no Jardim Leblon, um jovem de 28 anos foi baleado na coxa direita. Ele contou à polícia que havia assistido ao jogo da Seleção Brasileira na Avenida Afonso Pena e foi ao bar para comprar água.
Segundo o relato, quando estacionou e desceu do veículo, uma Volkswagen Saveiro preta parou no local. Um homem encapuzado desceu e começou a disparar contra Guilherme, que estava na calçada, enquanto outro suspeito permaneceu na direção do utilitário. A testemunha afirmou ter ouvido cerca de 20 tiros. Durante a confusão, pessoas se jogaram no chão para se proteger.
O jovem tentou atravessar a rua para buscar abrigo, mas foi atingido por um dos disparos. Ele foi socorrido pelo Samu e levado à Santa Casa de Campo Grande, onde deu entrada na área vermelha. Conforme informações médicas repassadas à polícia, o paciente está fora de perigo. O caso foi registrado como lesão corporal dolosa e será investigado junto com o homicídio.
Na madrugada de domingo, Athos Carvalho Jaques, 33 anos, foi internado na Santa Casa após ser baleado no pescoço na região da antiga rodoviária, no Bairro Amambai. Ele chegou sozinho ao Hospital Infantil São Lucas, na Avenida Afonso Pena, sem camiseta, vestindo calça jeans e tentando conter o sangramento com um casaco.
Funcionários acionaram a Polícia Militar por volta das 2h07. Mesmo desorientado, Athos disse que havia sido baleado na antiga rodoviária e apontou como autor um homem conhecido como “Neguinho do Chapéu'. Ele não soube informar a motivação do crime nem o paradeiro do suspeito.
Após o primeiro atendimento, feito por um médico do hospital infantil, Athos foi transferido pelo Corpo de Bombeiros para a Santa Casa. A Polícia Civil esteve no hospital e na região da antiga rodoviária, mas não encontrou o ponto exato do atentado nem testemunhas. O caso foi registrado como homicídio simples na forma tentada e lesão corporal dolosa.
Também na madrugada de domingo, um motorista de 51 anos foi atingido por um disparo na coxa esquerda durante um evento para assistir aos jogos da Copa do Mundo, em um salão de festas aberto ao público na região do Monte Castelo.
A Polícia Militar foi acionada por volta das 3h30 para ir à Santa Casa, depois da entrada do paciente na área vermelha. Quando a equipe chegou, ele já havia sido transferido para a área verde e aguardava procedimento cirúrgico.
À polícia, o homem disse que estava sentado assistindo a um jogo. No momento em que houve queima de fogos de artifício, ele se levantou e percebeu que estava sangrando. A vítima afirmou não ter visto de onde partiu o tiro e foi levada ao hospital por um colega.
A principal hipótese dos investigadores é de que o homem tenha sido atingido acidentalmente por uma bala perdida, já que declarou não ter desavenças nem inimigos. O caso foi registrado como lesão corporal dolosa. O homem não corre risco de morte.
Outro jovem, identificado como Guilherme Henrique de Oliveira Vasconcelo, também foi baleado na região do Parque do Lageado, na Rua Evelina Selingardi. Segundo o boletim de ocorrência, a polícia foi chamada após disparos de arma de fogo e informação de possível vítima, mas, ao chegar ao local indicado, não encontrou vestígios nem o ferido.
Pouco depois, os policiais localizaram o rapaz. A mãe dele contou que o filho havia saído para comprar uma pipa quando foi surpreendido por dois homens em uma motocicleta. Os suspeitos passaram pela via e atiraram contra o jovem, que foi atingido no abdômen.
Mesmo ferido, Guilherme conseguiu voltar para casa e pedir ajuda. Ele foi levado primeiro à UPA e depois transferido para o Hospital Regional de Campo Grande por causa da gravidade do caso. Conforme informações médicas repassadas à polícia, o projétil teria transfixado o fígado da vítima, possivelmente de calibre .38. O jovem passou por cirurgia e o estado de saúde é considerado grave.
Na Avenida Duque de Caxias, na Vila Nova Campo Grande, na madrugada desta segunda-feira, um jovem de 25 anos foi socorrido após ser atingido por um disparo de arma de fogo na perna esquerda. A Polícia Militar foi acionada para atender a ocorrência de lesão corporal por arma de fogo e, ao chegar ao local, encontrou a vítima já recebendo atendimento do Corpo de Bombeiros Militar.
O rapaz contou que caminhava por uma área de mata próxima à linha ferroviária desativada, entre a Vila Romana e a empresa JBS, quando foi baleado. Ele disse não ter visto quem atirou, mas acredita que havia mais de uma pessoa no local, por ter ouvido vozes no momento do disparo. A vítima estava consciente, orientada e com sinais vitais estáveis. Ela foi levada à Santa Casa de Campo Grande para atendimento médico. Como o ponto exato do crime não foi localizado, a perícia não foi acionada.
Números da violência - Dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) mostram que Campo Grande já registrou, neste ano, 57 casos de homicídio doloso, quando há intenção de matar, com 62 vítimas. Apenas em junho, são nove vítimas, número que ainda deve subir com a inclusão dos crimes do fim de semana e o encerramento do mês na próxima semana.
No mesmo período do ano passado, considerando junho fechado, foram 124 casos de homicídio doloso, com 141 vítimas. Em relação às tentativas de homicídio, Campo Grande soma neste ano 72 casos, com 94 vítimas. De janeiro a junho do ano passado, foram 181 casos, com 222 vítimas.
Em Mato Grosso do Sul, foram registrados no ano passado 402 casos de homicídio doloso, com 446 vítimas. Neste ano, até agora, são 189 casos, com 215 vítimas. Já as tentativas de homicídio somam 272 casos, com 337 vítimas em 2026. Em todo o ano passado, o Estado registrou 533 casos, com 636 vítimas.
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