Santa do Mel desaparece e muro esconde casa que já recebeu romarias na Capital
Imagem que atraía multidões segue escondida por dona Sônia, que afirma continuar recebendo relatos de milagres
| GABI CENCIARELLI / CAMPO GRANDE NEWS
Tijolos fecharam a entrada da casa que um dia recebeu multidões na Vila Glória, em Campo Grande. Atrás do muro, ainda é possível ver a inscrição desgastada pelo tempo: “Samta do Mel'. O nome pintado com erro ortográfico sobrevive como uma lembrança silenciosa da época em que aquela rua virou destino de romarias improvisadas, tomadas por pessoas que buscavam cura, bênção e esperança diante de uma imagem religiosa que, segundo a família, escorria mel.
Hoje, quase nada lembra o movimento que transformou a residência em um dos endereços mais conhecidos da Capital nos anos 2000. Não há filas na calçada, carros estacionados ou visitantes carregando garrafas e potes atrás de uma gota da substância considerada milagrosa. A casa parece apenas mais uma entre tantas outras da rua. Quem passa pelo local dificilmente imagina que ali já se acumulavam exames médicos, pedidos de oração e relatos de pessoas que juravam ter saído curadas.
Foi pela janela da residência que dona Sônia recebeu a reportagem do Campo Grande News. Ela não saiu para conversar e também não mostrou a santa. Disse apenas que a imagem continua com ela, guardada em um local mantido em segredo por causa da disputa judicial envolvendo o inventário do ex-marido, José João Rezek. “Ela tá guardada.'
Segundo ela, a santa deixou de ser exibida depois que começaram os conflitos familiares envolvendo os filhos do marido após a morte dele. A situação, afirma, mudou completamente a rotina da casa e fez o espaço ser fechado ao público. “Trouxe problema familiar, inventário, essas coisas.'
Enquanto fala sobre o passado, Sônia alterna lembranças afetivas, episódios que considera milagrosos e histórias que ajudaram a transformar a Santa do Mel em uma espécie de lenda urbana de Campo Grande. Tudo começou, segundo ela, ainda quando a família morava em outro endereço.
“Meu marido falou que estava sentindo cheiro de mel. A santa ficava em cima de um móvel. Quando fomos olhar, vimos que estava escorrendo.'
A versão mais conhecida da história, diz ela, nunca foi totalmente correta. “Não saía do olho, como muita gente fala. Saía do acendedouro da santa.'
O primeiro impulso da família foi tentar esconder o caso. O marido contou apenas para a irmã e pediu sigilo. Não funcionou. “Ela comentou com outras pessoas e a notícia começou a correr.'
A partir dali, o movimento tomou conta da casa. Segundo Sônia, havia dias em que mal era possível controlar a quantidade de pessoas no imóvel. “Nossa Senhora… vinha gente de tudo quanto é lugar.'
Pessoas chegavam trazendo exames, fotografias, recipientes e pedidos de oração. Algumas viajavam apenas para conseguir um pouco do mel distribuído pela família. “O povo vinha buscar pra passar, tomar, fazer oração.'
Segundo ela, muitos acreditavam que a substância tinha poder de cura. Outros buscavam respostas espirituais ou esperança para problemas considerados sem solução. “A fé remove montanha.'
Os relatos começaram a aumentar na mesma velocidade em que a fama da santa crescia. Entre os episódios que mais marcaram dona Sônia está o de um menino que teria chegado à casa com “fogo selvagem' pelo corpo. “Ele ficou aqui e, quando saiu de tarde, estava sequinho.'
Outro caso citado por ela envolve um homem que acreditava que seria condenado pela Justiça. “Ele falou que ia pegar muitos anos de prisão. Depois voltou dizendo que a sentença tinha mudado.'
As pessoas voltavam para agradecer. Segundo Sônia, exames médicos, cartas e bilhetes começaram a se acumular dentro da casa conforme os relatos de cura se espalhavam. “Deixavam laudos, agradecimentos, papel de exame.'
Entre as histórias mais conhecidas daquela época está a chamada “sopa da santa', preparada, segundo ela, com pequenas gotas do mel retirado da imagem religiosa. “Eu fazia com uma gotinha do mel.'
A receita ganhou fama entre os frequentadores da casa e, segundo Sônia, ainda hoje existem pessoas que procuram o local atrás da mistura.
“A sopa faz milagre até hoje.'
Ela afirma que, mesmo com a casa fechada e sem a movimentação de antigamente, ainda recebe visitantes discretamente, principalmente pessoas de fora da cidade que continuam acreditando na história. “Aparecem até hoje.'
Em meio às disputas familiares, Sônia diz que também viveu momentos de tensão. Segundo ela, pessoas chegaram a invadir o imóvel tentando destruir a santa. Mesmo assim, garante que a imagem nunca foi danificada e continua protegida em segredo.
Questionada sobre o motivo de a santa escorrer mel, ela apenas sorri antes de responder: “Isso você vai ter que perguntar pra Deus, minha filha.'
Apesar do silêncio que tomou conta da casa e do cenário bem diferente daquele que um dia atraiu multidões, dona Sônia insiste que a história da Santa do Mel ainda não terminou. E promete que, quando a disputa judicial envolvendo o inventário chegar ao fim, pretende abrir novamente os portões para receber visitantes. “Quando resolver tudo, eu vou reabrir.'
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