Em Assunção, Lula diz que Mercosul é "necessidade estratégica" para a região

Presidente defende união regional contra crime organizado e mudanças climáticas

| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS


Presidente brasileiro assume comando do bloco, anuncia reforço ao Focem e defende integração acima das diferenças ideológicas. (Foto Ricardo Stuckert/PR)

Em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas, mudanças climáticas e avanço do crime organizado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira (30), em Assunção, no Paraguai, que o Mercosul deixe de ser visto apenas como um acordo comercial para assumir um papel estratégico na estabilidade e no desenvolvimento da América do Sul.

Durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, Lula afirmou que o bloco representa hoje 'uma necessidade estratégica' para uma região cada vez mais polarizada e assumiu oficialmente a presidência temporária do Mercosul pelos próximos seis meses.

'O Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada', declarou.

Ao apresentar as prioridades da presidência brasileira, Lula defendeu uma agenda que combina crescimento econômico, integração física, segurança, transição energética, fortalecimento democrático e combate às desigualdades.

Fundo de integração receberá novo impulso

Entre os principais anúncios está o fortalecimento do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), criado para financiar obras que reduzam as diferenças de desenvolvimento entre os países do bloco.

Segundo Lula, o Brasil está disposto a ampliar sua participação financeira, destinando US$ 100 milhões por ano durante a próxima década para viabilizar uma nova etapa do programa, o chamado Focem-II.

O presidente destacou que, desde sua criação, o fundo financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão de energia e cerca de 100 quilômetros de redes de saneamento básico.

'O Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas', afirmou.

Comércio multiplicou por dez desde 1991

Lula também apresentou números para demonstrar a evolução econômica do bloco.

Segundo ele, o comércio entre os países do Mercosul cresceu de US$ 4,5 bilhões, em 1991, para mais de US$ 50 bilhões em 2025.

O intercâmbio comercial do bloco com o restante do mundo também registrou avanço. Em 2025, movimentou quase US$ 760 bilhões, crescimento superior a 6% em relação ao ano anterior, com exportações acima de US$ 400 bilhões.

Para o presidente, esses indicadores mostram que o Mercosul recuperou protagonismo nas relações internacionais e voltou a ampliar sua presença nos mercados globais.

Clima, energia e minerais entram na agenda estratégica

Além do comércio, Lula defendeu maior coordenação regional para enfrentar desafios climáticos.

Ele lembrou que a Organização Meteorológica Mundial já alerta para novos episódios do fenômeno El Niño, capazes de provocar secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, e afirmou que a integração sul-americana deve estar acima de diferenças ideológicas.

Outro eixo central do discurso foi a transição energética.

Segundo Lula, o Mercosul reúne condições privilegiadas para liderar a produção de hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação e ampliar a integração dos sistemas elétricos e de gás natural.

O presidente também destacou que os países do bloco concentram importantes reservas de minerais críticos, considerados essenciais para a indústria de baterias, veículos elétricos e tecnologias digitais.

Na avaliação dele, transformar essas riquezas em cadeias produtivas regionais representa uma questão de soberania e segurança econômica.

Democracia e combate ao crime organizado

Em um dos trechos mais políticos do discurso, Lula alertou para o avanço da desinformação e dos ataques às instituições democráticas em diversos países.

Defendeu maior cooperação regional para proteger minorias, combater a violência contra as mulheres e fortalecer mecanismos de participação social.

Na área da segurança, afirmou que o crime organizado já opera de forma transnacional, controlando territórios, movimentando recursos ilícitos e ampliando sua atuação no ambiente digital.

Segundo ele, a resposta dos países também precisa ocorrer de forma integrada, envolvendo cooperação policial, judicial e financeira.

Solidariedade à Venezuela

Antes de iniciar o pronunciamento, Lula pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos registrados na Venezuela na última semana.

O presidente manifestou solidariedade ao povo venezuelano e afirmou que tragédias dessa natureza reforçam a importância da cooperação humanitária entre os países sul-americanos.

Ao encerrar sua participação, Lula pediu que os integrantes do Mercosul preservem a autonomia nacional, mas ampliem o diálogo e a cooperação diante das transformações da economia mundial.

'Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses', concluiu.

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