Mais 2,3 mil estupros por ano: "MS corta os galhos e não trata problema na raiz"

Crime sexual alcança os 79 municípios, enquanto crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis

| BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS


Divã da ONG onde crianças e adolescentes vítimas de violência sexual tentam colocar em palavras o que sentem (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

“MS corta os galhos, mas não trata o problema na raiz.' A avaliação do advogado e professor Rafael Sampaio resume a dimensão de uma violência espalhada por todo o Estado. Entre 2016 e 2026, Mato Grosso do Sul contabilizou 23.434 vítimas de estupro nos 79 municípios, média de 2.340 casos por ano e 6,4 por dia.

Os dados são do Monitor da Violência contra a Mulher, atualizado até as 23h59 de terça-feira (7), com dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) e do PJMS (Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul).

Em números absolutos, Campo Grande lidera a série histórica, com 7.164 vítimas, o equivalente a cerca de 30,6% de todos os registros do Estado. Depois aparecem Dourados, com 1.942 casos, Três Lagoas, com 977, Corumbá, com 766, e Ponta Porã, com 684.

A concentração na Capital, porém, não permite concluir, sozinha, que Campo Grande seja proporcionalmente mais violenta. Para a psicóloga e professora do curso de Psicologia da Uniderp Carolina Mendonça, o volume pode refletir tanto fatores urbanos quanto uma maior capacidade de registrar os crimes.

“A concentração em Campo Grande, capital e maior cidade do Estado, é um dado que exige cautela. Pode representar, sim, maior violência associada a fatores como maior densidade populacional, desigualdade social e anonimato. No entanto, é igualmente plausível que reflita um maior acesso e capilaridade dos serviços públicos e, consequentemente, maior notificação', afirma.

No interior, segundo ela, a violência pode permanecer mais escondida justamente onde há menos serviços especializados, maior isolamento geográfico e relações sociais mais próximas, fatores que podem inibir a denúncia.

O advogado e professor do curso de Direito, Rafael Sampaio, também considera insuficiente olhar apenas para o total bruto de casos. Para ele, os dados precisam servir de ponto de partida para identificar onde, como e contra quem os crimes acontecem.

“Se temos um número excessivo de casos em Campo Grande, precisamos analisar o porquê, precisamos analisar a região, fazer uma análise criminológica do que está acontecendo, quem são essas vítimas, quem são esses agressores e mapear esses crimes', afirma.

Segundo o professor, informações mais detalhadas permitiriam direcionar políticas de prevenção de acordo com as características de cada território. “A partir do momento em que você tem todos esses dados estatísticos, você consegue traçar uma estratégia preventiva para evitar.'

Pico em 2023 e vítimas cada vez mais jovens - A série histórica mostra oscilações ao longo de uma década. Foram 2.002 vítimas em 2016, 2.199 em 2017, 2.242 em 2018, 2.294 em 2019, 2.135 em 2020, 2.114 em 2021, 2.266 em 2022 e 2.638 em 2023, o maior número do período.

Em 2024, o total caiu para 2.395 registros e, em 2025, para 2.174. Já em 2026, o painel contabiliza 975 vítimas, mas o número é parcial e considera apenas os dados registrados até julho.

Além da distribuição geográfica, o perfil etário expõe uma das faces mais graves do problema. O painel mostra maior concentração visual de vítimas entre crianças de 0 a 11 anos e adolescentes de 12 a 17 anos.

Para Carolina Mendonça, esse cenário expõe falhas que começam na identificação da violência e se estendem por toda a rede de proteção.

“Profissionais de saúde e educação, que deveriam ser os primeiros a identificar e comunicar suspeitas ao Conselho Tutelar, muitas vezes não o fazem por falta de capacitação ou medo de represálias', afirma.

Ela também aponta problemas na articulação entre os órgãos responsáveis pela proteção e no próprio atendimento à vítima. “A atuação do Conselho Tutelar, do Ministério Público, do Judiciário e das políticas de assistência social muitas vezes ocorre de forma desarticulada, sobrecarregada e sem o devido fluxo de informações, permitindo que crianças e adolescentes permaneçam em situação de risco'.

Rafael Sampaio defende que a escola tenha papel central na prevenção, especialmente porque, em muitos casos, o agressor está próximo da vítima e pertence ao seu círculo de convivência.

“É preciso que essas crianças tenham, na sua escola, um local de segurança e de confiança e que haja profissionais habilitados a fazer o acolhimento dessa criança e desse adolescente', afirma.

Para o advogado, a prevenção também passa por ensinar crianças e adolescentes, de forma adequada a cada idade, a reconhecer situações abusivas e identificar adultos de confiança.

“Quando a gente fala em educação sexual nas escolas, isso não quer dizer ensinar uma criança a se relacionar sexualmente, mas ensinar uma criança sobre quem pode chegar próximo dela, quem pode tocá-la e quais são as pessoas em quem ela pode confiar.'

Subnotificação - A presença de casos em todos os municípios mostra a extensão territorial da violência, mas não necessariamente sua dimensão completa. A subnotificação continua sendo uma das principais barreiras para medir o problema.

Vergonha, medo, dependência emocional ou econômica, ameaças e desconfiança no sistema podem impedir que vítimas procurem ajuda. No caso de crianças e adolescentes, o caminho até a revelação pode ser ainda mais difícil.

“Até ela ter consciência de tudo o que está acontecendo e ter a coragem de buscar alguém dentro da família para poder relatar esse caso, encontrar conforto e suporte na escola e levar esse caso até a delegacia, é um caminho muito longo e muito pesado para essa vítima', afirma Rafael.

Carolina acrescenta que o próprio atendimento institucional pode afastar vítimas quando há perguntas invasivas, repetição desnecessária do relato ou falta de acolhimento.

“A forma como a vítima é atendida, com perguntas invasivas, falta de acolhimento e exposição desnecessária, pode gerar sofrimento adicional e inibir novas tentativas de buscar ajuda', diz.

Para ela, o fato de todos os 79 municípios registrarem casos demonstra que a violência sexual não pode ser tratada como um problema localizado.

“A capilaridade dos registros demonstra que a violência sexual não é um fenômeno isolado ou restrito a grandes centros, mas uma problemática estrutural enraizada no tecido social de todo o Estado'.

A psicóloga avalia que a atuação estatal permanece concentrada na resposta ao crime depois que ele ocorre. “A atuação do Estado mostra-se predominantemente reativa, registrando e investigando o crime, em vez de proativa, atuando na prevenção primária por meio de educação, fortalecimento de vínculos comunitários e suporte às famílias.'

Rafael faz avaliação semelhante e afirma que aumentar penas ou criar novos crimes não resolve, sozinho, uma violência espalhada por todo o território.

“O Estado trata os crimes apenas de maneira repressiva. Apenas aumentam-se penas, criam-se crimes e, no fundo, o problema não é tratado na raiz. É como se você estivesse cortando só os galhos de uma árvore que está crescendo'.

Fragilidade de dados - Dos 23.434 registros de estupro em Mato Grosso do Sul, 12.870 não têm informação declarada sobre raça ou cor. Entre os dados preenchidos, há 4.812 vítimas pardas, 2.908 brancas, 468 indígenas, 372 pretas e 39 amarelas.

A falta dessa informação em mais da metade dos casos limita a identificação dos grupos mais vulneráveis e dificulta políticas públicas direcionadas.

Para os especialistas, o atendimento também precisa evitar a revitimização. Carolina Mendonça defende depoimento especial para crianças e adolescentes, capacitação dos profissionais e integração entre os serviços de proteção.

Rafael Sampaio ressalta que o acolhimento adequado também é decisivo para a investigação, já que crimes sexuais nem sempre deixam vestígios.

“A palavra da vítima é muito importante. Então, tratar essa vítima, cuidar dessa vítima, passa inclusive por garantir uma prova segura, uma prova bem feita para a futura punição do agente', afirma.

O mapa mostra a violência sexual em todos os municípios de Mato Grosso do Sul. Mas registro não é sinônimo de dimensão real do problema. Onde não há denúncia, pode haver apenas silêncio estatístico.

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