Além de transexuais, pessoas não binárias também podem mudar nome na certidão
Em MS, alteração de gênero ainda depende de ação judicial e vale inicialmente apenas no registro civil
| KETLEN GOMES / CAMPO GRANDE NEWS
Pessoas não binárias, cuja a identidade de gênero não se encaixa tradicionalmente em 'masculino' ou 'feminino', agora também podem solicitar a retificação de nome e gênero em Mato Grosso do Sul, mas, diferentemente do procedimento para pessoas trans binárias, que podem fazer a alteração diretamente em cartório, o pedido de quem se identifica como não binário ainda precisa ser feito pela via judicial. A alteração é registrada na certidão de nascimento ou casamento e não é estendida automaticamente aos demais documentos, como título de eleitor e CPF (Cadastro de Pessoa Física).
A orientação foi dada pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul durante a terceira edição do mutirão Transformando Histórias, realizado neste sábado (18), na sede da instituição, na Rua Barão de Melgaço, no Centro de Campo Grande. A ação oferece gratuitamente o serviço de retificação de nome e gênero para pessoas trans e conta com a participação de diversas instituições parceiras.
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Coordenadora do Nudedh (Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos), a defensora pública Thaísa Raquel Defante explicou que o atendimento às pessoas não binárias já faz parte do trabalho desenvolvido pelo núcleo, mas segue um rito diferente.
'Nos casos das pessoas não binárias, a gente precisa fazer o pedido pela via judicial. Não é possível fazer pelo cartório, mas nós atendemos na Defensoria Pública, damos as orientações sobre o que vai mudar, o que não vai mudar, o que vai constar na certidão de nascimento ou casamento e tomamos as providências necessárias para garantir esse direito', afirmou.
Segundo a defensora, a regulamentação sobre a identidade não binária ainda está em construção no país. Alguns estados já permitem a alteração diretamente em cartório, enquanto outros exigem decisão judicial. Em Mato Grosso do Sul, a Defensoria busca regulamentar o procedimento também pela via extrajudicial.
'O não binário é uma questão que ainda está sendo amadurecida. Existem discussões sobre como isso será refletido em outras áreas, como aposentadoria e documentos oficiais. Estamos buscando regulamentar essa possibilidade pelo cartório também', disse.
A defensora destacou que a retificação produz efeitos inicialmente apenas na certidão, tanto de pessoas trans quanto de não binárias. Depois disso, cabe à própria pessoa solicitar a atualização dos demais documentos.
'Quando a pessoa faz a retificação, não é automática a mudança nos outros documentos. Se eu retifico nome e gênero, preciso fazer depois a alteração do RG, do título de eleitor e dos demais documentos. O não binário segue a mesma lógica', explicou.
Mutirão - Ao todo, cerca de 90 pessoas manifestaram interesse em participar desta edição do Transformando Histórias. Destas, 51 concluíram o envio da documentação e tiveram atendimento agendado para este sábado.
De acordo com Thaísa, a diferença entre o número de interessados e de atendimentos ocorre porque parte dos inscritos não entrega todos os documentos ou interrompe o processo. Quem não conseguiu concluir o procedimento agora poderá ser atendido posteriormente.
A defensora ressaltou que a iniciativa garante acesso gratuito ao direito à identidade e reúne uma rede de instituições, entre elas a Corregedoria-Geral de Justiça, a Justiça Itinerante, a Anoreg (Associação dos Notários e Registradores), a Arpen (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais), cartórios extrajudiciais, MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e movimentos sociais.
'É através dos movimentos sociais que conseguimos acessar homens trans, mulheres trans e pessoas não binárias, que são diretamente interessadas nessa ação de retificação de nome e gênero', afirmou.
Subsecretária estadual de Políticas Públicas LGBTQIA+, Mikaella Lima Lopes lembrou que antes da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), em 2018, o processo de retificação era exclusivamente judicial e podia levar anos.
'Esse novo nascimento que nós, pessoas trans, passamos é primordial. Quebra paradigmas, preconceitos e até o medo de ser mal atendido no serviço público. Esse documento muda a vida de uma pessoa trans', disse.
Sobre a população não binária, ela defendeu que a legislação avance para contemplar todas as identidades de gênero.
'Precisamos incluir toda a população. Hoje ainda não é possível constar a nomenclatura não binária nos documentos da forma como defendemos, mas existe um diálogo para que isso aconteça e abranja toda a comunidade LGBT.'
'Minha nova vida' - Entre as pessoas atendidas neste sábado estava a garçonete Ana Livian Soares, de 40 anos. Ela chegou antes mesmo do início do mutirão por receio de perder o horário e descreveu a retificação como um recomeço.
'Eu cheguei nervosa, bem ansiosa, com as mãos suando. Isso é muito importante para a gente. Estou renascendo de novo. Agora dei esse passo muito importante, que é ter o meu nome, a minha identidade, o meu documento oficial dizendo quem eu realmente sou.'
Ana contou que perdeu a edição anterior do mutirão, mas conseguiu se inscrever este ano após ver a divulgação nas redes sociais da Defensoria. Todo o envio de documentos foi feito pela internet antes do atendimento presencial, e agora aguarda o contato do órgão público para retirar a nova certidão de nascimento.
'Eu gostava do nome Lívia. Depois pensei em um nome composto e lembrei da minha irmã, Ana Paula. Juntei Ana com Livian e senti que era esse mesmo. (...) Eles vão entrar em contato para marcar quando eu vou buscar a nova certidão. Vai ser a minha nova vida', relata.
Pessoas trans e não binárias, interessadas em saber mais sobre a mudança de nome e gênero em documentos oficiais, podem entrar em contato com o NUDEDH através do número 67 99265-7323.
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