Câncer de próstata: vergonha é deixar o preconceito vencer a prevenção

Exame de toque ainda enfrenta preconceito, quando o que importa é preservar a vida

| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS


Não há exame capaz de garantir o futuro, mas acompanhamento regular aumenta as possibilidades de descobrir doenças antes que seja tarde. (Foto arquivo)

A morte por câncer sempre deixa perguntas. Quando se trata de uma doença em que o diagnóstico precoce pode fazer enorme diferença no tratamento, fica também uma reflexão incômoda: quantas vidas poderiam ser prolongadas se o acompanhamento médico não fosse interrompido?

Recentemente perdi um amigo muito querido para o câncer de próstata. Tinha apenas 58 anos. Estava no melhor da vida, cercado pela família e vivendo uma das alegrias que mais valorizava: curtir os dois netinhos.

Ele não era um homem que tinha vergonha de médico ou que se recusava a fazer exames. Pelo contrário. Cuidava-se e fazia acompanhamento. Mas houve uma interrupção nesse processo durante o período da pandemia, quando consultas, exames e tratamentos de milhões de pessoas acabaram adiados ou deixados para depois.

No caso dele, não cabe afirmar que essa interrupção determinou o desfecho da doença. Seria uma conclusão que somente médicos, conhecendo todo o histórico clínico, poderiam fazer. Mas sua história deixa um alerta poderoso: o acompanhamento da saúde não pode ser abandonado por longos períodos, especialmente depois de determinada idade ou quando existem fatores de risco.

O câncer não respeita calendário. Não espera a vida voltar ao normal.

E essa experiência pessoal me fez pensar também em outro problema que ainda precisa ser enfrentado: a resistência de muitos homens aos exames preventivos, especialmente ao toque retal.

Em pleno século 21, ainda existem homens que transformam um procedimento médico em piada, constrangimento ou ameaça à própria masculinidade. É um preconceito tão absurdo quanto perigoso.

O toque, quando indicado pelo médico, é exame. Nada além disso.

Não torna ninguém mais ou menos homem. Não diminui masculinidade, dignidade ou virilidade. Pode, ao contrário, contribuir para uma avaliação que ajude a descobrir uma doença antes que ela avance.

É preciso deixar claro também que prevenção não significa simplesmente fazer o toque. A avaliação do câncer de próstata envolve acompanhamento médico, análise dos fatores de risco, PSA e, conforme cada caso, exame clínico e outros procedimentos. A decisão sobre quando começar e como acompanhar deve ser tomada com orientação profissional.

O maior erro é simplesmente não procurar o médico.

Homens ainda carregam uma cultura perigosa de resistência aos cuidados com a própria saúde. Levam o carro para revisão, acompanham prazo de troca de óleo, verificam qualquer barulho diferente no motor, mas conseguem passar anos sem fazer uma avaliação do próprio organismo.

Com a máquina somos cuidadosos. Com o corpo, muitas vezes, somos negligentes.

A perda do meu amigo tornou essa reflexão muito mais próxima e dolorosa. Aos 58 anos, havia ainda uma vida inteira pela frente. Havia amigos, família, projetos e dois netinhos para acompanhar crescendo.

É impossível saber quantos anos cada um de nós terá. Medicina não oferece garantia de eternidade, e mesmo quem se cuida pode adoecer. Mas existe uma diferença enorme entre aquilo que não podemos controlar e aquilo que podemos fazer para aumentar nossas chances.

Consulta médica está entre essas escolhas. Exames regulares também.

Por isso, a mensagem aos homens precisa ser simples: não tenham medo, não tenham vergonha e, principalmente, não deixem para depois.

E esqueçam definitivamente a velha bobagem em torno do exame de toque. Quando houver indicação médica, façam.

Alguns segundos de desconforto não significam absolutamente nada diante da possibilidade de ganhar anos de vida.

Anos para trabalhar, viajar, conversar com os amigos, abraçar os filhos.

E, sobretudo, para ver os netos crescerem.

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