Moto, ciclomotor ou autopropelido? Entenda as regras antes de comprar
Modelos atraem quem quer reduzir gastos no transporte, mas exigem atenção às regras e à manutenção
| BRUNA MELO / CAMPO GRANDE NEWS
Elas chegam quase sem fazer barulho, mas já não passam despercebidas nas ruas de Campo Grande. No caminho para o trabalho ou para a faculdade, motos elétricas, ciclomotores e autopropelidos ganham espaço com a promessa de trocar o gasto no posto de gasolina pela recarga na tomada de casa.
À venda em diversos pontos da cidade, esses veículos atraem pela economia. Contudo, antes de aderir, é preciso entender o que muda de um modelo para outro, onde cada um pode circular e quais cuidados essa escolha exige.
A diferença está, normalmente, na potência, autonomia e capacidade de carga dos veículos. Proprietários relatam redução nos gastos com transporte, embora a economia dependa do modelo, da frequência de uso e dos custos de recarga e manutenção.
Motinhas estão nas ruas — A aparência e o nome comercial, como “scooter', não determinam a classificação do veículo. São as características técnicas que definem as exigências de habilitação e emplacamento.
Nos modelos de duas rodas abordados na reportagem, os autopropelidos devem ter potência nominal máxima de até 1.000 W, velocidade máxima de fabricação de até 32 km/h, largura não superior a 70 centímetros e distância entre eixos de até 130 centímetros. Enquadrados nesses critérios, são dispensados de registro, licenciamento, emplacamento e habilitação.
Os veículos que ultrapassam esses limites podem ser classificados como ciclomotores, motocicletas ou motonetas, conforme suas características. Os ciclomotores elétricos têm potência máxima de até 4.000 W e velocidade máxima de fabricação de até 50 km/h. Para conduzi-los, é necessário ter ACC (Autorização para Conduzir Ciclomotor) ou CNH na categoria A, além da regularização do veículo.
Acima dos limites previstos para ciclomotores, o enquadramento passa a ser como motocicleta, motoneta ou triciclo, conforme o caso. Para motocicletas e motonetas, são exigidos CNH na categoria A, registro, licenciamento e emplacamento. As definições constam da Resolução Contran 996/2023.
Sonho de adolescência - A fotógrafa Luciana Nassar, de 52 anos, trocou seu carro por uma moto elétrica há 3 meses. Motivada pela economia, ela também relata estar feliz com a sensação de liberdade ao pilotar.
No início, a fotógrafa temeu pela segurança da filha Maria Vitória, de 14 anos, que a acompanha no veículo. Segundo Luciana, as duas sempre usam capacete. Ela também relata preocupação com a convivência com os motoristas durante os trajetos.
Luciana afirma não gastar com a recarga, feita no trabalho, onde há estrutura para abastecimento de veículos elétricos. Em dias de chuva e frio, recorre a carros de aplicativo.
Além da economia, a moto representa a realização de uma vontade antiga. “Na minha adolescência meu sonho era ter uma Mobilete, meus pais não permitiram, hoje com 52 anos estou me permitindo viver tudo que não vivi', diz.
O medo de ir a pé até a faculdade durante uma onda de furtos na região fez com que a estudante Nayane Aleixo, de 21 anos, investisse em uma motinha elétrica. O veículo teve custo alto para a estudante, mas, segundo ela, acabou sendo mais econômico quando comparado a outros meios de transporte.
O carregamento é feito em casa, em tomadas comuns, e demora de 5 a 6 horas. Nayane afirma que não percebeu grande aumento na conta de energia. Ainda assim, a estudante relata problemas de conservação após deixar o veículo exposto ao tempo.
“Já tive problema porque ela ficou muito tempo tomando sol e chuva sem proteção, então algumas peças dela ressecaram', conta. Ela também pontua que a situação das vias da cidade afeta o conforto das viagens. “Você sente bater, é muito ruim, quebra tudo de tanto que bate', relata Nayane.
Jovens até 35 anos — Ronaldo Gaby, de 54 anos, é proprietário de uma loja de mobilidade elétrica no Carandá Bosque há 5 anos. Ao Campo Grande News, ele relata que o principal público são os jovens entre 18 e 35 anos, que buscam economia para se deslocar ao trabalho e à faculdade.
Ronaldo conta que o campeão de vendas na loja é a scooter X13, que, segundo ele, tem potência de 1.000 W e alcança velocidade de 32 km/h. “É a mais completa de todas, né. Bateria de lítio, bluetooth, marcha-a-ré, suporte de celular com carregador, e suporta 200kg. Essa é o carro chefe das vendas', afirma.
Com venda de diferentes modelos de motos elétricas e autopropelidos, a loja de Ronaldo comercializa, segundo ele, cerca de 30 veículos por mês. O comerciante conta que abriu a loja para acompanhar as novas formas de mobilidade. “Vimos que as pessoas queriam fugir dos preços altos dos combustíveis e do trânsito pesado', diz.
Oficinas especializadas — Para a manutenção desses veículos, a orientação é procurar oficinas especializadas ou o suporte das lojas. O sistema elétrico, incluindo bateria, módulo e motor, exige profissionais capacitados.
Gladston Meneses, de 32 anos, é proprietário de uma oficina especializada há quase 5 anos. Com base nos atendimentos que realiza, ele atribui parte dos problemas ao uso inadequado, principalmente nos procedimentos de carga e descarga das baterias.
A mudança no padrão de consumo motivou Gladston a abrir a oficina. Ele conta que apostou no crescimento do mercado por avaliar que os elétricos ofereciam vantagens de desempenho em relação aos veículos a combustão. Atualmente, segundo o proprietário, o estabelecimento recebe, em média, 40 veículos por mês para manutenção.
Regras de circulação - A dispensa de habilitação para bicicletas elétricas e autopropelidos enquadrados na regulamentação não significa autorização para circular em qualquer lugar.
Em Campo Grande, a Agetran anunciou, em 18 de junho, uma regulamentação experimental, com validade inicial de 180 dias, para o compartilhamento de ciclovias e ciclofaixas entre bicicletas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos que atendam aos critérios federais.
Segundo a publicação da Prefeitura, os usuários devem adequar a velocidade às condições da via e ao fluxo de pessoas. A autorização se refere aos equipamentos enquadrados na norma, e não indistintamente a todos os veículos vendidos como motos elétricas ou scooters.
Financiamento para profissionais - A Caixa Econômica Federal oferece, pelo Move Brasil, financiamento de veículos elegíveis para entregadores de aplicativos e mototaxistas, sujeito aos critérios do programa e à análise de crédito.
A linha contempla veículos novos de até R$ 30 mil, incluindo bicicletas elétricas de até 1.000 W e motos elétricas de até 7.500 W, desde que produzidos no Brasil. Os interessados devem verificar o enquadramento e os modelos habilitados antes da contratação, conforme as orientações da Caixa.
A moto elétrica é uma oportunidade para Luciana sentir o vento e sentir liberdade. “Na minha adolescência meu sonho era ter uma Mobilete, meus pais não permitiram, hoje com 52 anos estou me permitindo viver tudo que não vivi', diz Luciana.
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