Ganhar ou perder faz parte. Perseguir ameaça a democracia
Lideranças devem conter hostilidades e promover o respeito entre cidadãos
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
A eleição terminou, mas parte do Brasil continua em campanha contra os próprios brasileiros. Em Mato Grosso do Sul, listas de boicote a comerciantes, ataques a eleitores e declarações sobre demissões por preferência política mostram como a disputa pelo poder pode contaminar relações que deveriam sobreviver a qualquer resultado eleitoral: o trabalho, a vizinhança, a amizade e o respeito entre cidadãos.
Em Jardim e Camapuã, comerciantes foram incluídos em listas que incentivam consumidores a evitar estabelecimentos associados à esquerda. Houve quem negasse o vínculo político atribuído ao negócio. A exposição, entretanto, já havia produzido preocupação com o sustento e com a relação construída com os clientes.
O problema merece atenção porque transforma uma escolha individual em motivo de punição coletiva. Uma empresa reúne proprietários, empregados, fornecedores e consumidores com opiniões diferentes. Tentar atingir seu funcionamento por intolerância política pode alcançar famílias que sequer participaram da discussão.
Cada consumidor tem liberdade para decidir onde comprar. Essa liberdade, porém, não dispensa responsabilidade diante de campanhas de intimidação, informações falsas e tentativas de constranger pessoas por suas convicções. A divergência precisa encontrar espaço no debate público sem converter a cidade em um mapa de inimigos.
Nas relações de trabalho, a situação exige cuidado ainda maior. Quem depende do salário para manter a casa está em condição de vulnerabilidade diante de uma ameaça feita por quem pode dispensá-lo. Mesmo quando uma declaração é posteriormente descrita como brincadeira, cabe perguntar que ambiente ela produz entre os trabalhadores.
Os episódios precisam ser investigados com rigor e respeito ao direito de defesa. Denúncia não equivale a comprovação, e falas sobre demissões não demonstram, por si, que as dispensas aconteceram. Essa cautela jornalística deve acompanhar uma posição igualmente firme: a preferência eleitoral de uma pessoa não pode servir de instrumento para humilhá-la ou ameaçar seu sustento.
A democracia depende desse compromisso. O voto assegura a cada cidadão uma escolha livre, inclusive quando ela desagrada ao empregador, ao cliente, ao vizinho ou à maioria de sua cidade. Esse direito perde força quando alguém precisa calcular o risco de perder o emprego antes de manifestar uma opinião.
Também é necessário compreender o que significa aceitar o resultado das urnas. Quem perdeu conserva o direito de fazer oposição, fiscalizar o governo, organizar manifestações pacíficas e disputar a próxima eleição. Quem venceu assume a responsabilidade de governar para toda a população, inclusive para os que escolheram outro caminho.
A vitória eleitoral não autoriza a arrogância. A derrota não justifica a perseguição.
Unificar o país exige preservar essas diferenças dentro de regras compartilhadas. Ninguém precisa abandonar suas ideias, aderir ao governo ou silenciar críticas. O compromisso necessário é com a legitimidade das instituições, a liberdade política e a dignidade das pessoas.
Há uma responsabilidade particular de lideranças políticas, empresariais e comunitárias. Suas palavras têm alcance e consequências. Alimentar ressentimentos pode render aplausos em um grupo de mensagens, mas deixa para a comunidade o custo da desconfiança e da hostilidade. Cabe a essas lideranças ajudar a desarmar os conflitos e condenar ameaças, inclusive quando partem de seus próprios apoiadores.
Mato Grosso do Sul tem problemas concretos que exigem cooperação: melhorar os serviços públicos, ampliar oportunidades, proteger o meio ambiente e enfrentar a violência. Nenhuma dessas tarefas será facilitada por listas que separam moradores conforme o candidato em quem votaram.
A vida em comum continua depois da apuração. O adversário político permanece cidadão, com os mesmos direitos e a mesma necessidade de trabalhar, consumir, criar os filhos e viver em segurança.
A democracia precisa prevalecer também nesse cotidiano. Nas urnas, ela permite escolher os governantes. Depois delas, exige maturidade para que todos possam continuar pertencendo ao mesmo país.
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