Karen fotografa terreiros para revelar a fé que o preconceito esconde

Imagens registram tradições ancestrais e ajudam a preservar a memória das religiões de matriz africana

| CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS


Com trabalho nos terreiros, fotografa ajuda a contar a história das religiões de matriz africana. (Foto: Karen Freitas)

“Fotografar também é um ato de resistência'. Essa é a forma como a fotógrafa Karen Freitas, de 25 anos, enxerga o trabalho que desenvolve há cinco anos registrando terreiros de Umbanda e Candomblé em Campo Grande e em outras regiões do país. Além de produzir imagens, ela defende que os próprios religiosos tenham voz para contar suas histórias e preservar a memória das tradições de matriz africana.

“Se a gente não contar nossa história, outros contam por nós', resume Karen. Para ela, transformar a câmera em uma ferramenta de documentação cultural também é uma forma de enfrentamento à intolerância religiosa.

A relação da profissional com a fotografia começou cedo. Aos 13 anos, ela já saía pelas ruas da Capital para participar de encontros de fotógrafos amadores e experimentar a fotografia documental. O interesse pela cultura popular se aprofundou durante a graduação em Artes Visuais na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), onde passou a pesquisar patrimônio cultural e memória coletiva.

Em 2021, a trajetória artística se encontrou com a religiosa. Ao entrar para uma casa de Umbanda e se tornar abian, uma espécie de aprendiz no Candomblé, Karen levou a câmera para um terreiro pela primeira vez. Desde então, passou a ser convidada para registrar festas e eventos relacionados à religião.

“Eu fotografo também como religiosa. Não consigo separar uma coisa da outra. Estou ali como artista da fotografia, mas também como filha de santo', explica.

Uma das iniciativas mais importantes criadas por Karen foi um grupo de WhatsApp que reúne fotógrafos de terreiros de várias regiões do país. A comunidade, organizada por ela há cerca de dois anos, nasceu da busca por profissionais que compartilhassem a mesma vivência religiosa.

Hoje, o grupo conta com aproximadamente 40 integrantes, entre fotógrafos do Sudeste, Nordeste, Norte, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul. Segundo Karen, todos os participantes fazem parte das religiões que fotografam.

“Fui procurando fotógrafos de terreiro pelo Instagram e convidando um por um. Criamos uma comunidade de pessoas que vivem a religião e registram essa experiência a partir de dentro', conta.

Para ela, a existência dessa rede mostra uma mudança importante na forma como Umbanda e Candomblé vêm sendo retratados.

Karen lembra que as religiões de matriz africana foram criminalizadas no Brasil por muito tempo e tiveram sua identidade constantemente atacada. “Foi negado ao povo preto o direito à própria identidade. Muitas práticas foram proibidas e essas tradições precisaram encontrar maneiras de sobreviver', afirma.

Por isso, ela acredita que fotografar terreiros hoje também significa registrar uma história que quase foi apagada. “Temos que fotografar, escrever, pintar, gravar música e falar sobre essas religiões. É uma forma de respeitar a memória de quem lutou pelo direito de professar sua fé no Brasil', pontua.

Além do trabalho como fotógrafa, Karen cursa mestrado em Estudos Culturais, Memória e Patrimônio na cidade de Goiás (GO), onde pesquisa justamente temas ligados à preservação cultural.

Ela acredita que a fotografia pode ajudar a combater estereótipos ainda muito presentes nas redes sociais. “Existe muito vídeo de preconceito e muita imagem usada para atacar a religião. Quando nós mesmos produzimos essas imagens, conseguimos mostrar nossa vivência com responsabilidade e construir outra narrativa', afirma.

 “A câmera não serve só para fazer uma foto bonita. Ela serve para dizer que nós existimos, que nossa história importa e que ela não pode ser esquecida', finaliza.

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