Estado precisa valorizar artistas de Mato Grosso do Sul, diz Alice Yura

Artista é a primeira sul-mato-grossense a ter exposição individual na Pinacoteca de São Paulo

| GUILHERME CORREIA / CAMPO GRANDE NEWS


Alice Yura é natural de Aparecida do Taboado e é a primeira artista do Estado com exposição individual na Pinacoteca, em São Paulo. (Foto: Divulgação)

Alice Yura, natural de Aparecida do Taboado, é a primeira artista sul-mato-grossense a ter uma exposição só para ela na Pinacoteca de São Paulo, uma das maiores instituições de arte da América Latina.

Ela cresceu na cidade com aproximadamente 29 mil habitantes no interior do Estado e só teve o primeiro contato com arte contemporânea quando se mudou para Campo Grande para estudar artes visuais na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), entre 2008 e 2011.

'Esse período foi extremamente importante e fundamental para a minha formação enquanto artista', disse a artista ao Lado B.

Foi nessa época também que ela visitou pela primeira vez a capital paulista. Em 2010, foi ver a Bienal e conheceu a Pinacoteca, então ainda sem a ala contemporânea.

Na exposição, havia obras de Humberto Espíndola, artista sul-mato-grossense que Alice já conhecia de outro contexto. 'Quando prestei vestibular para artes visuais, em 2007, tive que fazer uma escultura de papel crepom baseada num trabalho do Humberto', conta.

'Já naquele momento, eu me questionava se algum momento eu teria também oportunidade e condições de chegar a ter uma exposição num lugar como a Pina.'

Dezesseis anos depois, a resposta chegou. Alice Yura é a primeira artista sul-mato-grossense a ter uma exposição individual na Pinacoteca Contemporânea.

(Antes dela, Espíndola já tinha obras expostas no acervo permanente da Pinacoteca, mas nenhum artista havia recebido exposição individual).

A Pina Contemporânea, inaugurada mais recentemente no bairro da Luz, é um anexo ao prédio principal, centenário.

Do interior para o Brasil

Morando no interior, longe dos circuitos de arte de Campo Grande e mais ainda de São Paulo, Alice acumulou currículo a cada seleção aprovada por bancas e editais de arte contemporânea. A internet, segundo ela, também foi importante.

'Sendo uma artista do interior do Mato Grosso do Sul, conseguir ter uma circulação nacional é mais difícil ainda. A internet possibilitou criar meios de divulgar meu trabalho e me conectar com pessoas do sistema das artes.'

A exposição na Pina se chama “Alice Yura: Um ato fotográfico'.

E o título não é acidental.

Para a artista, a ideia era propor uma outra relação com a fotografia — não apenas algo para ser visto, mas algo para ser vivido.

'A fotografia enquanto algo que é vivo, enquanto uma ação, uma reação, um posicionamento. O ato fotográfico gira em torno dessas questões todas.'

Dentro da exposição, há uma instalação que funciona como um estúdio aberto ao público — câmeras, rolos de negativo, equipamentos para foto 3x4, álbuns de família.

Tudo pertenceu ao “Foto Yura', o estúdio fotográfico fundado por seus avós em Aparecida do Taboado em 1958 e que funcionou até o ano passado. 'A gente construiu um estúdio dentro da própria exposição para que as pessoas possam produzir fotografias, tirar fotografias delas, fotografar pessoas, serem fotografadas', explica.

A proposta é que esses objetos — câmeras velhas, negativos, equipamentos de revelação — ativem uma memória coletiva que vai além da história pessoal da artista. 'Isso faz parte de uma memória coletiva que não diz respeito à minha própria história exclusivamente.'

O ato fotográfico, então, é também sobre experiência: 'Unir a noção da fotografia que a gente costuma pensar como algo para ser visto com um lugar para ser vivido.'

A família e o Estado

A exposição tem dois eixos principais: O primeiro gira em torno da família paterna — os Yura —, descendentes de japoneses que chegaram ao Brasil em 1936 e se fixaram em Aparecida do Taboado em 1958, ano em que fundaram o Foto Yura. Era uma tradição de homens fotógrafos, que exerciam a fotografia como ofício e serviço.

Alice é um ponto de inflexão dessa tradição. Ela é uma mulher trans, que hoje carrega a assinatura fotográfica da família. 'Existe essa ruptura de gênero dentro dessa pesquisa e esse reposicionamento.'

O segundo eixo trata da família materna: mulheres do interior sul-mato-grossense, de origem caipira, de fazenda. 'Eu fui criada por essas mulheres', diz Alice. A exposição traz essa presença feminina — não em oposição ou comparação entre o feminino cis e trans, mas em “integração e da complexidade que é a existência dessa noção do feminino'.

Mato Grosso do Sul também aparece, mas de forma não óbvia, para ela.

Por exemplo, em “A ponte', a artista compõe fotografias do arquivo de seu pai — imagens da construção da ponte sobre o Rio Paraná, que liga Mato Grosso do Sul a São Paulo — com uma fotografia sua feita já do lado de cá da ponte, com a câmera apontada de volta para o território sul-mato-grossense, para o entardecer sobre o Estado.

'Meu pai fotografou no solo sul-mato-grossense, se direcionou para o estado de São Paulo. Eu faço o contrário: atravesso a ponte, posiciono a câmera em direção ao território sul-mato-grossense e fotografo o entardecer do nosso estado.'

'O Estado, a cidade aparecem de forma não estereotipada', resume Alice.

Não há tuiuiús nem garças, exemplifica. Os clichês sul-mato-grossenses não são o foco, mas sim memória de imigração, formação de população, multirracialidade e gênero. “Minha família é multirracial'.

Valorização fora do Estado

Alice Yura vive dividida entre Aparecida do Taboado e São Paulo. Quando tem projetos na capital paulista, ela vem. Depois, volta ao interior e tenta fazer as coisas por lá.

Apesar de ser a primeira sul-mato-grossense com exposição individual na Pina, ela reconhece que não tem dentro do próprio Estado as mesmas condições que encontra fora dele.

'Eu levo o nome do estado em todos os lugares onde faço exposições. E eu acho que o nosso estado precisa começar a valorizar e garantir melhores condições de trabalho, circulação e impulsionamento dessas carreiras', diz.

Para ela, o fato de estar na Pina é um sinal de que a arte feita no Mato Grosso do Sul 'se comunica, dialoga com o que está acontecendo no âmbito nacional e internacional'.

Mas também expõe uma contradição: é mais fácil, para um artista do interior do Estado, circular em São Paulo ou fora do Brasil do que ter apoio e visibilidade dentro de casa, segundo ela. Alice também expôs no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2022.

'A gente não pode pensar que os artistas do Mato Grosso do Sul só fiquem dentro do próprio estado', diz ela. 'A gente precisa fazer com que o que é produzido chegue também no âmbito nacional e internacional.'

A exposição

A exposição abriu há poucos dias, quando esta entrevista foi realizada, mas o retorno já chegava pelas redes sociais e também das pessoas que trabalham na própria instituição. Alice diz que a resposta tem sido positiva e que esperava que fosse assim.

'Ela mobiliza coisas muito profundas, muito complexas de uma forma muito afetuosa. As pessoas se sentem de alguma forma contempladas e fazendo parte daquilo tudo que vem sendo falado dentro da exposição.'

Quase 16 anos depois da primeira vez que visitou a Pinacoteca e se perguntou se um dia chegaria lá, Alice Yura está lá — com uma sala só sua, com os objetos dos avós, com as fotos do pai, com o entardecer sobre o Mato Grosso do Sul.

O ateliê aberto funciona entre os dias 15 e 26 de abril, e a exposição ficará disponível até 13 de setembro na Pinacoteca Contemporânea, no Parque da Luz, na capital paulista.

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