Há 1 mês, devido a uma pesquisa que venho realizando a respeito da política no município de Fátima do Sul, fui convidado pelo amigo Renato Vessani, Diretor responsável pelo site de notícias Vicentina Online, para escrever um histórico sobre o município de Vicentina e sua longa luta pela emancipação do território de Fátima do Sul. Uma honra para quem pesquisa história, mas também um desafio. Alguém poderá questionar: um fatimassulense escrevendo sobre a emancipação de Vicentina? Sim, por que não?! Não guardo rancores daquela “divisão”. Muito pelo contrário, afinal no ano em que isso ocorreu, 1987, eu era uma criança de 2 anos. Cresci ouvindo falar a respeito da “Cidade Menina”, principalmente da sua proximidade com Fátima, “Vicentina é bem ali”. Por outro lado, somos, antes de tudo, habitantes de um espaço geográfico muito maior que o município, somos todos da nave mãe Terra. Creio que seria muito interessante um mundo sem fronteiras, quem sabe não veríamos tragédias como as que estão ocorrendo com os imigrantes quem tentam uma vida melhor na Europa.

Deixemos os sonhos um pouco de lado e vamos ao que assunto deste texto. Um amigo vicentinense José dos Santos, popular Zé do Óculos, já me relatou que vem realizando há um bom tempo uma pesquisa sobra a história do município. Peço licença a ele, não quero intrometer-me em seu assunto, mas apenas dar uma pequena contribuição com os irmãos do município vizinho. Desejo todo sucesso a ele e que em breve possa divulgar tal pesquisa, sonho de todo pesquisador.

Segundo um texto publicado no antigo jornal Gazeta Popular, de Dourados, do dia 24 de junho de 1993, o povoado de Vicentina foi fundado no ano de 1951, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, alguns anos após Vila Brasil (hoje Fátima do Sul). Ela fazia parte do projeto colonizador do presidente Getúlio Vargas, denominado Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND).

Ainda conforme o jornal, entre seus fundadores destacaram-se: Eutácio Caetano Braz, Pedro Marcelino, Antônio Roberto Dias, Jubelino Mamédio, Erço Carlos do Nascimento, seu Morishita e sua esposa Dina Morishita, Kikuji Yasunaka, famoso Padre José Daniel, entre tantos outros, que não tenho informações, mas que sem dúvida o amigo Zé do Óculos sabe bem quem são.

No dia 9 de julho de 1974, o governador de Mato Grosso, José Garcia Neto, veio a Fátima do Sul e a Vila Vicentina para inaugurar a rede de energia elétrica. Foi um dia muito importante para o município, pois a partir daquele momento os moradores das localidades teriam um pouco mais de conforto.

No ano de 1976, o mesmo governador aprovou Lei número 4.999 que criou o município de Vicentina. No dia 16 de maio daquele ano a Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou a lei. Em novembro de 1976 foi realizada a primeira eleição para prefeito. Os candidatos foram: Julio Bastos (ARENA 1) e Arnaldo Agostinho (MDB). O vencedor foi Julio Bastos. No entanto, Julio governaria por pouco tempo, apenas 10 meses, pois o então prefeito de Fátima do Sul, Samir Chafic Garib (ARENA) havia derrubado na Justiça estadual a emancipação. Por meio do advogado Josephino Ujacow o prefeito entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou a emancipação inconstitucional. Iniciou-se aí um período de rivalidade entre duas cidades que durou 10 anos. Os plebiscitos passariam a fazer parte da história daquele povo.

A primeira consulta popular para definir a emancipação ou não de Vicentina ocorreu, segundo o jornal O Progresso, no dia 23 de janeiro de 1978. Foi uma intensa campanha do SIM contra o NÃO. O sim defendia a emancipação do distrito o não pela manutenção. No dia 24 saiu o resultado: SIM 2.067 votos; NÃO 159. Vicentina voltaria a se tornar independente, mas não seria por muito tempo. Em maio daquele ano o prefeito Samir entrou com Mandado de Segurança do Tribunal de Justiça contra a emancipação, que também definiu como inconstitucional.

Outra tentativa ocorreu em agosto de 1985, no entanto, o plebiscito realizado não contou com o quorum exigido para que houvesse aprovação. Este plebiscito terminou de forma violenta, com a depredação de um ônibus da empresa Viação Netto (VICENTINA não consegue emancipação e plebiscito acabou em depredação. O Progresso. Dourados, 27 ago. 1985, p. 1).

Foi somente no ano de 1987 que se realizou o terceiro plebiscito. Desta vez o prefeito de Fátima do Sul era Hermindo de David (PDS) que não interferiu na luta dos vicentinenses por sua emancipação. O projeto de lei era do deputado Ivo Cersósimo (PMDB). No dia 7 de fevereiro de 1987, a população decidiu no plebiscito pela independência política. O então governador de Mato Grosso do Sul, Marcelo Miranda Soares (PMDB), foi à praça de Vicentina no dia 20 de junho daquele ano e sancionou a Lei número 725 (FIM da luta: Vicentina é município. O Progresso. Dourados, 10 fev. 1987, p. 1). Estava definitivamente criado o município de Vicentina, composto pelos distritos de Vila São José, Vila Rica e o povoado de Três Irmãs.

* Mestre em História pela UFGD e professor em Fátima do Sul. E-mail: wc-chagas@hotmail.com

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