Eleições 2026: partido não pode ser esconderijo de candidato sob suspeita
Legendas recebem bilhões do contribuinte e têm o dever de selecionar com rigor quem colocam nas urnas
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
O dinheiro que financia boa parte da política brasileira sai do bolso de todos. São bilhões destinados aos fundos partidário e eleitoral para bancar partidos e campanhas. Se a sociedade paga essa conta, tem o direito de exigir, no mínimo, responsabilidade de quem escolhe os candidatos que serão apresentados ao eleitor.
Os partidos políticos não podem funcionar apenas como máquinas de registrar candidaturas, distribuir recursos e calcular votos. Precisam assumir responsabilidade política e moral pelos nomes que colocam nas urnas.
Quando existem investigações consistentes, denúncias formalizadas ou elementos relevantes indicando possível envolvimento de um pré-candidato ou candidato com organizações criminosas, corrupção ou outros crimes graves, o partido não deveria simplesmente lavar as mãos e repetir que “a Justiça decidirá'.
A Justiça, evidentemente, é quem julga. E ninguém deve ser considerado culpado antes de uma condenação definitiva. O devido processo legal, o contraditório e a presunção de inocência são garantias fundamentais e precisam ser preservados.
Mas uma coisa é responsabilidade penal. Outra é responsabilidade política.
Para disputar uma função que dará poder para decidir sobre bilhões de reais do orçamento, produzir leis, fiscalizar governos, indicar caminhos para políticas públicas e representar milhares ou milhões de pessoas, não deveria bastar preencher as condições mínimas previstas na legislação eleitoral.
Partido político não é cartório.
Se existem suspeitas graves e fundamentadas, cabe à legenda avaliar se aquele cidadão reúne condições políticas e éticas para representá-la. Pode não existir impedimento judicial para a candidatura, mas nada obriga um partido a oferecer legenda, estrutura e dinheiro público a qualquer pessoa simplesmente porque ela ainda não foi condenada.
É justamente aí que começa a responsabilidade partidária.
O problema é que, muitas vezes, prevalece outro critério: o potencial eleitoral. Se o candidato tem votos, influência, dinheiro, grupo político ou capacidade de puxar uma chapa, determinadas legendas parecem dispostas a relativizar quase tudo. A preocupação deixa de ser a qualidade da representação e passa a ser exclusivamente o resultado das urnas.
Isso precisa mudar.
Os bilhões colocados à disposição dos partidos não podem servir para financiar aventuras eleitorais de pessoas cercadas por suspeitas graves sem que as direções partidárias deem qualquer satisfação à sociedade. Dinheiro público exige responsabilidade pública.
E essa cobrança não termina nos diretórios partidários.
Chega ao eleitor.
A urna é a última barreira. Se o partido falhou ao escolher, o cidadão ainda pode rejeitar. Antes de digitar os números, é preciso pesquisar quem é o candidato, conhecer sua trajetória, consultar processos e patrimônio declarado, verificar quem financia politicamente sua campanha e avaliar o que ele fez antes de pedir o voto.
Não se pode reclamar durante quatro anos da corrupção, do desperdício do dinheiro público, da criminalidade ou da má qualidade dos políticos e, no dia da eleição, entregar mandato justamente a quem carrega questionamentos graves sobre sua conduta.
É claro que investigação não é condenação. Denúncia não é sentença. E acusações também podem ser falsas ou utilizadas politicamente. Por isso, cada situação precisa ser analisada com responsabilidade, provas e contexto — nunca por boatos ou condenações de redes sociais.
Mas a prudência também é um valor democrático.
Quem pretende administrar dinheiro público e receber o poder extraordinário conferido por um mandato deve estar preparado para prestar esclarecimentos públicos sobre suspeitas relevantes que pesem contra sua trajetória. E os partidos precisam explicar por que decidiram entregar legenda e recursos públicos a determinados candidatos.
Democracia não significa apenas permitir candidaturas. Significa também selecionar representantes dignos da confiança da sociedade.
Partidos têm a primeira responsabilidade.
Eleitores têm a palavra final.
E quando ambos ignoram sinais graves, não adianta, depois da eleição, fingir surpresa com aquilo que já estava diante dos olhos antes de a urna ser aberta.
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